Margarida Colaço
Colocado a 18 Setembro, 2012 por Margarida Colaço em Política e Economia, História e Sociedade
“ACTIVIDADE POLÍTICA DOS INTELECTUAIS PORTUGUESES" de Agostinho da Silva
(Seara Nova, nº 248, 14 de Maio de 1931)

in Ensaios sobre Cultura e Literatura Portuguesa e Brasileira / Círculo de Leitores

A propósito do livro célebre de Benda muito se tem discutido por todo o mundo civilizado o problema importante da intervenção dos intelectuais na política; têm-se manifestado diversas opiniões e, ao passo que uns defendem as torre de marfim e os retiros silenciosos e os julgam indispensáveis à gestação da obra de arte ou do volume erudito, outros proclamam a necessidade absoluta da intervenção dos intelectuais na política. E ainda hoje, estudos e artigos, com grande fogo de argumentos, se entrecruzam na Europa, onde mais alto se levantou a polémica.

Contra o que seria de esperar, a Portugal chegou também um eco da discussão e poder-se-iam facilmente citar nomes dos que se manifestaram contra e a favor da intervenção; os argumentos foram em geral os mesmos que se empregaram noutros países, sem que se tivesse atentado em diferenças profundas que existem entre essas terras e a nossa. Creio, pois, que o debate terá que ser recomeçado, sob o ponto de vista nacional, e atendendo bem ao estado do país. E parece-me ser momento próprio para o fazer aquele em que algumas vozes de moços eruditos proclamam a necessidade de filólogos, filósofos, historiadores da literatura, e, em especial, dos nossos mestres das Faculdades de Letras, se votarem por completo aos seus trabalhos, abandonando todas as preocupações políticas.

Estranhamente se escreve e se defende que é necessário trabalhar com honestidade, abandonar a política; e esta palavra, ligada às anteriores pelo verbo abandonar, toma um sabor pejorativo que, por andar muito em moda, e ser máscara de pensamento vazio, nem por isso se torna muito defensável; a política é assim alguma coisa de tão vergonhoso e cria tão maus hábitos desonrosos que logo o conselho surge, num aviso aos estudiosos incautos: fugi da política, meus amigos, cuidado com ela; e trabalhar bem com o dicionariozinho, trabalhar bem com o documentozinho!

O essencial é, pois, que descubramos etimologias e busquemos, com furor, pelos arquivos, os pergaminhos velhos que nos falam de todas as coisas miúdas e insignificantes que tanto interessam a mentalidade pitoresca dos nossos eruditos; eis novamente e claramente defendida a fuga, o isolamento do mundo, o esquecimento de que antes de tudo se é cidadão e só depois erudito e professor.

Com uma ilusão que cada vez mais se lhes cerra sobre os olhos, os nossos sábios das letras aconselham o afastamento da vida política ¬¬– como se lhes fosse possível a eles, depois da abstenção, trabalhar como desejariam; queixam-se de que os arquivos estão mal organizados, de que os governos não dão importância ao nosso património – quer o património sejam as pedras velhas dos castelos, quer as cartas de tença dos Reis Nossos Senhores. E não tentam um esforço para que eles próprios estejam um dia em posição de arrumar os arquivos e mandar arranjar as pedras.

Não; para eles o ideal é continuarem vivendo como até agora, encolhidos com as suas coisas velhas que a ninguém mais interessam, azedos e prontos à briga erudita, sem comunicação com o país que justamente os ignora e despreza. E para que algum se não tente, vem o pomposo elogio dos que abandonam a política, a censura velada aos que, segundo dizem, não trabalham com honestidade.

A questão é importante e precisamos naturalmente de nos entendermos sobre ela. A atitude que tomam os intelectuais portugueses e especialmente os que vivem à volta das Faculdades de Letras mal se poderia defender num país em que tudo estivesse organizado para facilitar e honrar o trabalho do espírito; já hoje mesmo, nas terras em que sempre se rendeu homenagem à inteligência, na Inglaterra, na França, na Alemanha, se vai censurando vivamente que as universidades, abafadas em erudição, tenham perdido de vista, esquecido quase por completo o aspecto moral e cívico dos seus estudos.

Em Portugal, os intelectuais que abandonarem a política, actividade fundamental do cidadão, tornam-se ainda muito mais culpados e dignos de crítica justiceira. Efectivamente, todo o trabalho de erudição que se faça no nosso país será inútil e supérfluo enquanto não arrumarmos Portugal; não nos iludamos sobre isto, porque o acordar de sonhos tais é sempre doloroso e lamentável; Portugal precisa, antes de mais nada, de ser metido em pastas com etiquetas e ser posto em verbetes, para sabermos o que temos e sobretudo o que nos falta. Depois, quantos problemas essenciais a resolver.

De certo eu convenho com os amigos eruditos que é esplêndido termos boas edições de clássicos, com muitos glossários e no final uma gramática de cada autor; nem sei como exprimir o meu desejo de histórias bem fornecidas de documentos, com os nomes de todos os heróis e as datas de todos os fossados; e fico sorrindo, banhado de uma doce alegria, porque me lembrei de todos os nossos monumentos tratados e restaurados, com guardas fardados à porta, um palácio novo para os Arqueólogos e um palácio novo para os Académicos. Mas, antes disso, meus amigos, precisamos de pão, e aos políticos se abre todo o imenso horizonte deste problema a resolver. E precisamos de inteligência.

Não daquela inteligência subtil e rábula que nos vem de Coimbra e sabe estropiar os textos; nem da inteligência senhora de si e de si ufana, que julga o freguês besta; mas da inteligência que compreende, que tem a clareza do que recebe como uma necessidade inelutável, a inteligência que só se pode conseguir pela reforma mental dos portugueses e esta depende da política.

É evidente que nós não queremos que os eruditos abandonem todo os seus velhos livros, as suas queridas gramáticas, e vão, sob um calor forte de Agosto, montados numa égua mansa, cobertos com um vasto guarda-sol, fazer discursos em que prometam estradas e pedir votos a camponeses que, de resto, lhos não dariam. Nem queremos também que a política seja para os intelectuais ir partir carteiras no Parlamento ou o meio mais depressa, sem probidade de espécie alguma, mentindo e plagiando, alcançarem a cátedra – e dormirem. E, Deus meu!, menos que tudo pretendemos que venham para a rua, em agitados dias de revolta, disparar os seus tiros de espingarda, berrando pragas latinas.

Não, os intelectuais devem fazer política, mas intelectualmente; eles devem constituir aquela força de crítica vigilante que todos os governos temem e afastados das coisas miúdas de dia a dia, melhor poderão desempenhar a sua missão de reguladores e orientadores; não esqueçamos isto: a missão dos intelectuais tem de ser sobretudo de orientação e de crítica; portanto, serena, sem intenções pessoais, mas com perfeito e seguro conhecimento de ideias.

Quase insensivelmente vim arrastado até esta última palavra – ideias; eu queria-a afastar do meu caminho para não ter que dizer, com um pouco de dureza, o que me parece ocultar este temor que os intelectuais de Portugal têm da política: eles dão-me a impressão de terem sobretudo uma vasta e paradisíaca ignorância de ideias.

Fora da sua especialidade estreita de arqueólogos e biógrafos, de maus arqueólogos e de maus biógrafos, os nossos eruditos são como morcegos tombados no chão; que desajeitado bater de asas, que movimentos indecisos, que tombos, que posições tão profundamente cómicas: em volta riem-se as crianças – e eles aí estão a arfar, a arquejar, mais ridículos a cada volta, confusos e trôpegos.

A cultura geral dos nossos sábios das letras é quanto há de mais rudimentar, o mundo das ideias uma coisa que os atormenta, um voo largo de síntese logo os encadeia e desmaia; e rancorosamente falam de retórica, de falta de documentos, e fogem de todo o debate de pensamento.

A abstenção da política não representa, pois, para eles, uma acção de deliberada inteligência, mas o reconhecimento de uma impotência cobarde. E, já metidos nos seus cacifos de papelada, todos os seus conselhos e todos os seus actos tendem a levar os moços que se manifestem pela política a renunciar a toda a actividade para irem, como eles, velhos mochos, pesquisar breves e ordenações.

Outra razão ainda se opõe a que os intelectuais portugueses se dediquem à política; ela é na realidade, pouco cómoda; como se tem de atender a uma cultura geral e não apenas à da especialidade, é difícil, se não impossível, entrar para a Academia – onde se exige, com a apresentação da candidatura, um atestado de ignorância; tem de se sustentar uma luta de todas as horas contra as más-vontades, a rotina, a malícia e a estupidez, que tão desoladoramente abundam em Portugal.

A troco, pois, da sua abstenção, os eruditos conseguem um comodismo que é apenas momentâneo, mas que eles tomam por eterno; porque à sombra da fuga vergonhosa, todo o aventureiro se poderá lançar ao poder e entronizar, com os mesmos efeitos perniciosos, a Ordem e a Desordem. E amanhã, porque a vida intelectual é impossível, num país desorganizado, eles terão de limitar ou por completo cessar as suas investigações. E porque não quiseram sacrificar a sua formação de especialistas, porque, nem um momento sequer, olharam a realidade da Vida, hão-de fatalmente ver perdidos e anulados todo o seu esforço, todo o seu trabalho.

Não são o nosso país e o nosso tempo de molde a permitirem que todos aqueles que sentem uma vocação a sigam decididamente, sem se importarem com o que se passa à sua volta e sem investigarem das possibilidades de execução dos seus trabalhos; cada um de nós tem de desistir de ser o grande arqueólogo, o grande historiador, o grande filólogo que poderia talvez vir a ser; a missão é outra – mais nobre e imensamente mais difícil: a de preparar as condições de meio indispensáveis para que outros o possam vir a ser depois de nós. Isto está dito e redito: parece que já devia estar assente como princípio fundamental na alma de cada moço português; e são exactamente moços que vêm pregar a necessidade de afastamento da política; só uma coisa nos pode consolar: a juventude desses moços só é garantida pelas suas certidões de idade.

Mas esses, quero crer que são a minoria; muitos outros haverá que sentem a necessidade de intervir na política, sobretudo na ocasião em que fazê-lo é defender a dignidade pessoal no que ela tem de mais sagrado e intangível; na ocasião em que tomar uma atitude política é lavrar o protesto mais caloroso e mais veemente contra certos atropelos de liberdade de pensamento e de expressão, gritar bem alto a vontade de ser homem e não coisa que se maneja segundo o capricho dos que têm força. Esses jovens existem; e é forçoso que finalmente se decidam a deixar por um momento os seus livros e a lançar-se à conquista do que é essencialíssimo para o homem, daquele sentimento, daquele anseio que põe uma palpitação mais forte no seu coração e uma chama mais viva e clara na sua inteligência: a Liberdade.

A responsabilidade contraída pelos intelectuais inactivos em países que porventura estão sob o domínio de classes em detrimento de todas as outras é sempre muito grande; maior ainda naqueles em que as preocupações dominantes dessas classes podem conduzir a nação a gestos que depois se reconhecerão irreparáveis, a descalabros que ninguém jamais poderá remediar.
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